Em entrevista, o Dr. David Sotto-Mayor Machado destaca o papel da Atlântica na coordenação de uma iniciativa europeia que promove inclusão, competências digitais e diálogo intercultural entre jovens e educadores de vários países.
Dr. David Sotto-Mayor Machado, o SWITCHin Virtual nasce no cruzamento entre internacionalização, inclusão, competências digitais e diálogo intercultural. Como apresentaria, de forma sintética, o contexto que levou à criação deste projeto e os seus principais objetivos académicos e sociais?
O SWITCHin Virtual nasce da necessidade de criar oportunidades internacionais mais inclusivas, acessíveis e sustentáveis para jovens e profissionais da educação que nem sempre conseguem beneficiar de formas tradicionais de mobilidade académica. O projeto procura responder a esse desafio através de um modelo de intercâmbio virtual que combina formação, diálogo intercultural e desenvolvimento de competências transversais.
Nesse quadro, a Virtual Academy tem um papel essencial, porque se dirige a educadores, professores e youth workers, preparando-os para conceber, dinamizar e acompanhar experiências de aprendizagem virtual e intercultural. Não se trata apenas de os familiarizar com ferramentas digitais, mas de reforçar a sua capacidade pedagógica para trabalhar com grupos diversos, moderar diálogos interculturais, promover participação ativa e criar ambientes online inclusivos, seguros e significativos.
Em paralelo, os Upskilling Labs dirigem-se sobretudo aos jovens participantes, trabalhando áreas como soft skills, interculturalidade, empreendedorismo, literacia digital, media literacy e competências financeiras. Assim, o SWITCH atua em dois níveis complementares: capacita educadores para conduzirem práticas inovadoras de intercâmbio virtual e oferece aos jovens espaços de aprendizagem, colaboração e crescimento pessoal em contextos internacionais.
Olhando para trás, considera que os objetivos quantitativos definidos para o SWITCHin Virtual chegaram a ser demasiado ambiciosos para um projeto desta natureza? E que desafios concretos tiveram de ser ultrapassados para os alcançar, e até superar?
Ao submetermos a candidatura como coordenadores, não diria que víssemos esses objetivos como irrealistas. Eram, sem dúvida, muito ambiciosos, mas foram pensados como objetivos SMART, incluindo a dimensão de serem atingíveis. O projeto previa envolver cerca de 1.100 jovens e 100 youth workers, educadores e professores, e essa ambição fazia sentido considerando a composição do consórcio e a participação de instituições de ensino superior como a Atlântica e a ESSATLA, a Universidade de Bedër, na Albânia, e a Universidade de Pristina, no Kosovo.
Dito isto, atingir esses números foi bastante difícil. Não podemos simplesmente assumir que os nossos estudantes vão participar porque a oportunidade existe. Muitos conciliam trabalho académico, vida pessoal e, em alguns casos, estatuto de trabalhador-estudante. Além disso, o SWITCH não é uma atividade pontual; é um percurso longo, praticamente ao longo de todo o ano letivo, com componentes síncronas e assíncronas.
O que fez a diferença foi a flexibilidade do modelo. A possibilidade de participação modular permitiu que muitos estudantes aderissem ao módulo, ou aos módulos, em que sentiam maior necessidade. A componente assíncrona também foi decisiva, porque permitiu acompanhar conteúdos sem exigir presença permanente, mantendo ainda assim momentos de partilha e intercâmbio virtual. Alguns participantes, naturalmente, abraçaram a experiência por inteiro e criaram verdadeiras comunidades de intercâmbio virtual ao longo dos ciclos de 2025 e 2026.
No caso dos educadores, a adesão foi elevada em ambos os ciclos, mas ficou também muito claro que, para profissionais ocupados, a oferta assíncrona não é um complemento: é uma condição de participação.
O segredo esteve na divulgação interna, mas também, em grande medida, nos contactos institucionais. Foi esse trabalho que permitiu, por exemplo, a adesão da Poltava State Agrarian University, da Ucrânia, com quem acabámos por celebrar um memorando de entendimento que abre caminho a uma cooperação académica e científica mais alargada.
Referiu a importância dos contactos institucionais e o caso da Poltava State Agrarian University como exemplo de uma cooperação que ultrapassou a própria participação no projeto. Pode desenvolver melhor essa estratégia de mobilização internacional e explicar de que forma essas parcerias ajudaram a alargar o alcance do SWITCHin Virtual?
Sim. Esse trabalho nasceu de uma constatação muito pragmática. Durante o primeiro ciclo, percebemos que já tínhamos chegado a uma parte muito significativa da população académica das instituições de ensino superior envolvidas no consórcio, naturalmente com exceção dos novos estudantes que ingressariam em 2025-2026. Ao mesmo tempo, as organizações não governamentais ligadas ao youth work, que complementam o consórcio, também já tinham mobilizado sucessivamente os seus públicos-alvo naturais.
A comunicação digital oferece hoje uma enorme facilidade de alcance, mas também sabemos que a sua taxa de conversão é cada vez mais reduzida. Ver uma publicação, receber uma newsletter ou clicar num link não significa necessariamente aderir a um programa exigente, com componentes síncronas, assíncronas e uma duração prolongada. Por isso, decidimos avançar para uma estratégia de contactos institucionais mais estruturada.
Partimos de diretórios disponibilizados pela DGES e por entidades congéneres, no âmbito do projeto, e fizemos também um trabalho muito extensivo de identificação de instituições de ensino superior em várias regiões do mundo. O critério foi claro: contactar instituições sediadas em países que não estivessem excluídos da participação em projetos europeus e que, no momento dos envios, não estivessem envolvidos em conflitos armados, mesmo quando ainda não constavam formalmente de listas de exclusão. A exceção foi a Ucrânia, precisamente pela prioridade atribuída pelo Erasmus+ à cooperação com o sistema educativo ucraniano.
Foi assim que nasceu esta campanha de contactos institucionais. Também aí a taxa de conversão foi naturalmente baixa, mas o impacto foi muito relevante. Hoje conseguimos identificar grupos de inscrições provenientes de instituições que simplesmente disseminaram a informação internamente, e tivemos casos especialmente significativos, como o da Poltava State Agrarian University. A PSAU deixou de ser apenas uma instituição que recebeu informação sobre o SWITCH e passou a envolver-se de forma muito ativa, quase como parceira associada do projeto, contribuindo para uma participação expressiva dos seus estudantes e abrindo caminho a uma cooperação académica e científica mais ampla.
E o coordenador do projeto, ou os vários coordenadores locais, conseguem fazer esse trabalho de disseminação sozinhos?
Não, de forma alguma. Um projeto desta natureza nunca é o trabalho de uma pessoa só, nem sequer apenas do coordenador formal, ou apenas dos vários coordenadores locais. A disseminação, a mobilização de participantes, a adaptação das estratégias e a própria gestão diária exigem uma equipa muito presente, disponível e alinhada.
No caso da Atlântica, tenho de destacar o trabalho da Susana Rodrigues e da Ana Matos, que acompanharam fases muito importantes do projeto e tiveram um papel essencial no caminho que nos trouxe até aqui. A fase inicial foi particularmente exigente, porque estávamos a construir uma dinâmica comum entre instituições que nunca tinham trabalhado juntas neste formato. Há diferenças culturais, ritmos institucionais distintos, algumas barreiras linguísticas e formas diferentes de entender prazos, qualidade dos outputs ou processos de decisão. Tudo isso obriga a tempo, escuta e ajustamento.
Quando assumi a coordenação, não entrei para corrigir nada. Entrei para continuar um excelente trabalho que já vinha a ser feito, contando sempre com o contributo das minhas colegas e com a colaboração de todo o consórcio. Esse ponto é importante, porque a qualidade que hoje conseguimos alcançar resulta desse percurso acumulado.
As equipas locais também têm envolvido mais do uma pessoa. No caso do parceiro neerlandês, com quem comunico mais no que diz respeito à comunicação, a equipa, incluindo estagiários, é muito mais alargada do que apenas o coordenador local. No Kosovo, estudantes finalistas, com formação na área financeira, passaram para o outro lado das sessões, e tiveram no projeto a sua primeira experiência letiva, como eu tive um dia, na Atlântica. O projeto tem sido efetivamente um caminho de desenvolvimento pessoal e até profissional para todos os envolvidos.
Gosto de usar uma analogia simples: Roma e Pavia não se fizeram num dia. E até uma equipa de futebol sujeita a muita mudança, mesmo com bons jogadores, precisa de treino, competição e tempo para ganhar ritmo de jogo. Um consórcio internacional funciona de forma semelhante. No início há adaptação; depois, com confiança, método e trabalho partilhado, começa a haver uma verdadeira cooperação.
O SWITCHin Virtual envolve jovens de Portugal, Espanha, Países Baixos e dos Balcãs Ocidentais (Albânia, Kosovo, e Montenegro), mas tem sido também enriquecido pela presença de estudantes ucranianos, e estudantes sedeados em países africanos, num contexto humano particularmente exigente. De que forma essa participação beneficia não apenas os próprios estudantes ucranianos, mas também os jovens dos países do consórcio, ao confrontá-los com realidades de resiliência, compromisso académico e valorização das oportunidades disponíveis?
Essa participação tem um impacto muito profundo, e não apenas no plano académico. Para os estudantes ucranianos, e também para estudantes sediados em países africanos ou em contextos mais desfavorecidos, o SWITCH representa uma oportunidade concreta de ligação internacional, de aprendizagem e de pertença a uma comunidade que ultrapassa fronteiras. Mas o impacto nos jovens dos países do consórcio é igualmente significativo.
Houve uma sessão que, para mim, resume muito bem esta dimensão humana do projeto. Um participante ucraniano estava a intervir quando começámos a ouvir sirenes. Ele interrompeu-se, pediu desculpa com uma naturalidade quase desarmante, e explicou que, na cidade de Zaporíjia, estavam a ser chamados para recolher aos abrigos subterrâneos. Os de Poltava também saíram. Naturalmente, isso teve um impacto emocional enorme. Não estávamos a ver a guerra nas notícias; estávamos a ouvi-la em direto, através de alguém com quem os participantes estavam a conversar, a aprender e, em alguns casos, a começar a construir uma relação de amizade, ou de algum afeto ou compaixão virtual.
O mais marcante foi que a conversa mudou sem ser preciso qualquer intervenção do monitor. Os próprios jovens começaram a refletir sobre o contraste entre a dificuldade que muitas vezes sentimos em encontrar tempo para participar em algo, e a vontade daqueles estudantes que, mesmo vivendo uma realidade tão dura, continuavam presentes, interessados e comprometidos com o seu desenvolvimento pessoal e académico.
Creio que foi um momento catártico, tanto para os participantes mais jovens como para os próprios facilitadores. E no dia seguinte recebemos uma mensagem simples, mas inesquecível: “Professor David, estamos todos bem. Já voltámos à universidade. Até amanhã!” Ainda me arrepio ao recordar esse episódio. Ele mostra que o intercâmbio virtual não é apenas uma ferramenta pedagógica; pode ser também uma experiência profundamente humana, capaz de gerar empatia, consciência e valorização das oportunidades que muitos de nós tendemos a dar por garantidas.





